Matadores de Porcos.

A reunião [encontro] tinha sido marcada [convocada] por um de nós.

A pauta? Uma das propriedades em nosso entorno tinha por moradores criadores de porcos que também tinham lá um matadouro.

Antigos na região, não imaginavam que ela, já há algum tempo, abrigava vizinhos que eram um dos núcleos mais fortes de guardiões do bem-estar de seres vivos do planeta.

– Temos que fazê-los parar – dizia um deles – sempre foi difícil suportar os cheiros, os sons, a dor que emana de lá, mas agora está demais.

– E o que aconteceu de especial? – perguntou outro deles

– Acho que nós estamos ficando cada vez mais sensíveis, cada vez mais percebemos e sentimos a dor da matança – respondeu.

– E quais as sugestões para resolver isso?

– Avisos. Fazer seus clientes não conseguirem chegar até eles. E se não funcionar nada, matar o responsável.

– Matar?

– Matar. Eles matam. Por que não podemos fazer o mesmo com ele?

A sala ficou em silêncio, todos pararam e focalizaram seu olhar naquele que havia falado por último.

E no silêncio que se seguiu, um deles ergueu a cabeça, se levantou e começou a falar, em voz baixa. Mas sua voz ecoava por todo cômodo.

– Seres vivos não devem ser mortos assim, deste modo. Começamos a não matar o que criávamos para comer, depois a não matar o que nos atacava, depois a não matar o que nos parasitava. Começamos a conversar com eles. A explicar. E a entender. Entendemos as plantas, entendemos os minerais, falamos com átomos.  E agora, mataremos os matadores de porcos. Depois, os que os vendem. Depois, os que os comem. Depois, os que os que pensam em comê-los. Depois, os que gostariam de comê-los. Depois, os que nós achamos que fariam todos os anteriores. Depois, nós matamos os que de nós são suspeitos. De qualquer coisa. E depois nós provamos que não entendemos nada. Aliás, provaremos ser piores que todos, porque sabíamos e mesmo assim não paramos.

O silencia na sala, a esta altura, era sepulcral. E todos, lívidos, olhavam para aquele que falava.

E ele continuou: – e dito isso, declaro esta reunião encerrada. E que ela nunca mais ocorra. Se nós abdicamos, conscientemente, à ação de exercer qualquer direito sobre a vida e a morte de qualquer coisa, que permaneçamos assim. Não foi fácil chegar até aqui. E pelo que vi hoje, é mais difícil ainda nos mantermos assim. Sabemos provavelmente mais que outros sobre muito, mas ainda somos um mistério para nós mesmos. Que nossas emoções se alinhem com nossa compaixão e nossos pensamentos.

E todos saíram silenciosamente da sala, sem nem ao menos olharem uns ao outros.

A intensidade da luz de pessoas sem personas machucava.

 

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