A rede de dona Márcia

Num intervalo das minhas viagens pelo Brasil afora, sentado em um banquinho, num boteco que era ‘a beira mar do sertão do Brasil’, ouvi esta estória (ou história, vai saber) que nunca mais esqueci.

Há anos atrás ouvi em um noticiário policial uma reportagem sobre um marido que levou a amante para dentro de casa [e da cama] por que a esposa e os filhos viajaram e supostamente iriam demorar para voltar.

Mas voltaram antes.

E na confusão que se seguiu, a mulher foi esfaqueada pela amante do marido, o marido foi esfaqueado por sua amante, e o marido ainda deu vários socos no rosto da mulher. Prenderam os dois, marido e amante, e eu nunca mais ouvi nada sobre esta história.

E voltando ao banquinho e ao boteco, chega um rapaz, pede para sentar, o que permito, e depois da quinta dose de cachaça ele começa a me contar uma estória [ou história, vai saber]: que anos atrás uma mulher tinha pegado o marido e a amante do marido quando chegava à sua casa (com os filhos), levou facadas e murros, e o marido e a amante foram presos. E condenados.

A amante acabou morrendo na prisão (pelo que ele sabia, ela era ‘esquentada’ e se ‘esquentou’ com a pessoa errada no presídio onde ela estava), mas o marido cumpriu pena, saiu, e voltou a sua cidade, onde iria procurar a sua família, e a mulher e os filhos. Mas antes de fazer isso, chegando a sua cidade parou num bar e foi beber. E sentou numa mesa onde ao lado estava sentado um rapaz.

E este rapaz se levantou, pediu licença e sentou com ele. Era um rapaz discreto e bem apessoado, com fala de gente culta, de cidade grande. Segundo meu interlocutor, ele estava na mesa ao lado e ouviu a conversa, mesmo sendo falada em voz baixa pelos dois (a princípio o marido falava alto, mas depois foi abaixando a voz).

Diz ele que o rapaz falava: sr. X, eu vim aqui dar um aviso ao senhor, a pedido de amigos. É para o senhor sumir da cidade e nunca mais aparecer. O marido respondeu alto, indignado, mas como quase todos em volta sabiam quem ele era, faziam de conta que não ouviam nada.

Sr. X, o senhor nunca soube quem era de verdade a dona W. e agora, após 10 anos, sabe menos ainda. A dona W começou a apanhar do senhor no terceiro ano de casamento – e nisso o marido o olhou assustado e começou a abaixar a voz – e em vez de se separar, dizia que enquanto o senhor tratasse bem os filhos, ela ficaria. E como a cidade em que viviam não era pequena, tinha coisas que dava para fazer sem que todos ficassem sabendo.

Por exemplo, cuidar de adolescentes que eram agredidos pelos pais (ou por um deles). E manda-los para bem longe dali. Quando a separação ocorreu (porque o senhor foi preso) já fazia mais de 10 anos que ela fazia isso. E o senhor nunca soube.

Então, continuou o rapaz, vou lhe dar um aviso: nunca, mas nunca mesmo, chegue perto da dona W e dos filhos dela – eles também são meus filhos, o marido protestou, já debilmente – muitos dos rapazes são adultos, não dá para saber quem eles são, e o senhor está jurado de morte se chegar perto ou tentar se comunicar com a dona W ou com os filhos dela. Na verdade o senhor já estava jurado de morte muito antes da história da sua amante em casa, mas ela nunca deixou que ninguém lhe fizesse mal. Mas agora… como muitos dos envolvidos são adultos, não tem como esta proibição dela se manter. O senhor tem até amanhã para ir embora. Mas se ficar, não vai ficar vivo por muito tempo.

O marido baixou a cabeça, pensou e perguntou: minha mulher teve alguma coisa com a morte da F. na cadeia?
Ela não, respondeu o rapaz, ela jamais faria isso, mas alguém soube que ela falava que iria matar sua mulher quando saísse de lá.

E olhando para o marido, o rapaz falou: ela usou muito o caso dela para orientar vários rapazes. Dizia que quando conheceu o senhor, e até o segundo ano de casamento, ela achava que iria ficar o resto da vida casada. Que o senhor era atencioso, trabalhador, mas que depois percebeu que aos poucos o senhor foi se cansando disso, ficando cada vez mais distante e violento e que ao mesmo tempo percebeu que o senhor jamais a deixaria ir embora, que ela para o senhor havia virado ‘coisa’ em vez de pessoa. E que ela sentia pena dos filhos. Falava para eles nunca agirem assim, que não prestava.

E levantando-se, falou: é melhor o senhor ter cuidado para onde vai. E para quem telefona. E foi embora.

Diz que ele ficou por lá, pensativo, até que se levantou e foi até o telefone público do bar – que também ficava perto do rapaz que me contava a história – pegou um papel no bolso e ligou.

– Filho? Aqui é seu pai, acabei de sair da prisão e estou aqui em H. Como assim desligar depressa e sumir? Os amigos de sua mãe vão fazer o que? Como assim é para nunca mais eu aparecer? … Só se eu quiser ficar vivo?… Depois ele ficou em silencio e desligou.

E o rapaz viu o marido sair do bar em direção à rodoviária, cabisbaixo. E disse que nunca mais viu o marido na cidade.

Anos depois, por uma coincidência muito estranha, que só acontece na vida real, estava com um amigo da cidade de H. que conhecia o tal marido e ele estava sentado em um boteco, em uma cidade longe da cidade natal dele, e não resisti à curiosidade. Pedi licença para sentar, contei o que havia ouvido anos atrás e perguntei a ele o que havia acontecido desde então.
Ele me respondeu que não havia acontecido nada, mas que ele nunca mais tivera contato com sua mulher e com os filhos. Que só ocasionalmente tinha contato com alguns dos irmãos. Por que quando ele saiu do bar em direção à rodoviária, ele lembrou que dois irmãos seus, bem mais novos que ele, apanhavam muito do pai (e mais tarde dele) e que de repente, quando ele já era casado, tinham sumido da cidade. E ninguém nunca havia entendido o que tinha acontecido. E depois da conversa do bar ele entendeu.

E achou melhor sumir.

Perguntei então como era a vida dele agora.

E ele me respondeu: seca, amarga, murcha. Mas que há muito tempo era assim, só que ele não percebia. A diferença era que agora ele percebia. E sabia.

E ficamos um tempo assim, quietos, sentados na mesa do tal boteco, até que me levantei, agradeci e fui embora com meu amigo.

tecela

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